Fato e consequência: o hábito de deixar para depois

156

Você já passou pela situação ou conhece alguém que demorou a realizar algo importante e depois perdeu a oportunidade? Já viveu a sensação de ansiedade de achar que não vai dar tempo? Isso é bem comum nos dias de hoje.

Vivemos uma vida mais atribulada, cheia de compromissos, de tarefas e atividades onde temos que decidir a todo instante o que é importante e o que pode ser postergado. Não é mesmo? O estresse diário e o acumulo de responsabilidades vai gerando uma sensação que se torna real de que nosso tempo está se esvaindo rapidamente.

“Não há nada no mundo, nem recompensa,nem castigo, o que há são consequências” Robert Ingersoll

O detalhe disso tudo é que estamos perdendo o controle daquilo que realmente é importante. Este é o perigo desta vida maluca atual. Vou relatar um caso ocorrido recentemente com uma aluna e que reflete estes tempos de descontrole do tempo, da produtividade, do foco e, consequentemente, da vida.

Orientei meus alunos da faculdade a realizar um trabalho individual que consistia basicamente em assistir dois vídeos e fazer uma conclusão crítica sobre eles. O trabalho era simples. Dei um prazo bem amplo: dezesseis dias, ou seja, duas semanas, que possibilitaria ainda tirar alguma dúvida, se necessário, pessoalmente na próxima aula. Na semana seguinte reiterei os detalhes acerca do trabalho a ser entregue, esclarecendo eventuais dúvidas e já aceitando os manuscritos daqueles que já havia realizado a análise crítica e conclusão do mesmo.

Muito bem, mais uma semana se passou e chegou o prazo final para entrega, em mãos. No final da aula, após todos os mais de 100 alunos já terem entregado o trabalho, uma aluna veio conversar:

Professor, cheguei às 17h (a aula inicia às 18h) para fazer o trabalho na biblioteca da Faculdade e quando estava quase terminando o computador travou e perdi tudo, pois salvei na “área de trabalho” e me disseram que por lá não era possível recuperar o arquivo. O que eu faço? Não acho justo perder nota, pois o erro não foi meu, mas do computador que travou”.

Qual seria sua atitude diante desta situação? Havia comentado que aqueles que não entregassem o trabalho naquele dia, prazo máximo previamente informado, poderiam entregar posteriormente, mas perdendo alguns pontos da nota devido o prazo ter extrapolado. Fato e consequência!

Então… cheguei à conclusão que estamos passando por uma grave e profunda crise de falta de comprometimento pessoal. Pergunto a mim mesmo todos os dias (inspirado no famoso discurso de Steve Jobs em Stanford): tenho feito meu melhor em tudo o que faço? Estou feliz com o que faço? Como posso melhorar?

Essa praga chamada “procrastinação” está ganhando espaço nas faculdades/universidades, empresas, famílias e em toda a sociedade. O hábito de deixar para depois está se tornando crônico e altamente perigoso. Com isso perdemos em produtividade e qualidade, além de elevarmos o custo operacional e o retrabalho.

Pior é transferir a responsabilidade para o externo. No caso da aluna, se ela tivesse feito o trabalho dias antes nada disso teria ocorrido. Poderia refazer com tempo hábil, mas aos 46 minutos do segundo tempo, os imprevistos podem ocorrer sem prazo suficiente para solucionar.

Reforço a necessidade de aprimorar as competências básicas de liderança, independente de atuar como gestor neste momento. É preciso assumir a responsabilidade. Ampliar a auto-liderança. Gerenciar as tarefas de forma mais eficaz. Definir as prioridades e fazer acontecer. Somos os responsáveis pelo o que acontece de bom ou ruim em nossas vidas. Não é possível delegar responsabilidades que afetam diretamente nossas vidas. Temos que assumir os riscos e resultados: fato e consequências.

Para finalizar deixo uma reflexão do grande poeta chileno Pablo Neruda:

“Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.”

>>> Rogerio Martins é psicólogo, escritor, palestrante e professor universitário. Mais informações no site www.rogeriomartins.com.br ou no Youtube (www.youtube.com/palestranterogeriomartins) ou no Facebook (www.facebook.com/palestranterogeriomartins)